Projeto comandado pelo produtor cultural Junior Bala reúne entrevista, música e descontração para aproximar o público dos artistas da cena independente de Fortaleza
A história da Abrigo Nuclear Produções nasceu de maneira quase despretensiosa, dentro de um estúdio de ensaio. O espaço, que inicialmente pertencia à banda do produtor cultural Junior Bala, começou a receber amigos em 2011. Dois anos depois, com sua saída da banda, veio a decisão de manter o estúdio ativo e, a partir dele, ampliar a atuação para a produção musical, audiovisual e cultural.
O que começou como um espaço de ensaio acabou se transformando em um ponto de encontro e produção para artistas da cena independente de Fortaleza. Agora, essa trajetória ganha um novo capítulo com o lançamento do Sessão Nuclear, projeto que pretende unir música, entrevista, curiosidades e, principalmente, a descontração que existe nos bastidores da cena.
“A produtora e gravadora foi só consequência dos trabalhos e estudos na área da música e cinema”, explica Junior Bala, ao lembrar do início da Abrigo Nuclear.
Mais do que registrar apresentações, o novo projeto parte de uma inquietação do produtor: mostrar os artistas para além do palco e da imagem muitas vezes mais séria que acompanha uma produção musical tradicional.

Da inspiração ao Sessão Nuclear
A ideia de criar um programa musical não surgiu de repente. Junior conta que sempre acompanhou programas como Musicaos, da TV Cultura, e Matéria Prima, que posteriormente deu origem ao Altas Horas. A inspiração ganhou uma nova forma quando conheceu o formato do programa Ensaio, também da TV Cultura.
“Eu percebi que não precisava ser um apresentador”, conta.
Em 2021, Junior chegou a produzir um piloto com a banda O Ciclo, mas as limitações de recursos fizeram com que o resultado não correspondesse às expectativas. Com a ampliação e melhoria da estrutura do estúdio, porém, o projeto voltou a ganhar força.
Desta vez, a proposta conta também com o incentivo do coletivo Artes em Conexão e o apoio financeiro de um prêmio da cultura.
A primeira temporada do Sessão Nuclear terá cinco programas.
Música, conversa e resenha
A proposta do Sessão Nuclear é simples, mas nasce de uma percepção bastante particular de quem vive a cena independente por dentro: os músicos também têm histórias, curiosidades e personalidades que muitas vezes não aparecem em um videoclipe, em uma gravação de estúdio ou durante uma apresentação.
“Como estou inserido na cena, tem muitas curiosidades que eu sei que seria massa que o público soubesse”, explica Junior.

Para ele, existe também uma diferença importante entre registrar uma banda em uma gravação convencional e acompanhar esses artistas em um ambiente mais descontraído.
A intenção é recuperar uma atmosfera semelhante à conversa depois de um show, quando artistas e público deixam um pouco de lado as formalidades.
“Temos sim ídolos na nossa cena underground, conversem com eles sem medo”, afirma o produtor.
É justamente essa proximidade que o projeto pretende levar para a tela: artistas apresentando seu trabalho, falando sobre suas trajetórias e mostrando um lado mais espontâneo, sem abrir mão da qualidade e do profissionalismo.
Segundo Junior, o público pode esperar de cada episódio “curiosidades, profissionalismo e diversão, independente do estilo musical”.
Os desafios de produzir música independente
A criação do Sessão Nuclear também acontece em um cenário que continua apresentando desafios para quem produz cultura independente em Fortaleza.
Para Junior Bala, um dos principais problemas está na dificuldade de garantir condições financeiras para que artistas talentosos possam continuar produzindo.
“A pior parte é ver gente talentosíssima parando no meio do caminho por causa da sobrevivência financeira”, afirma.

Na visão do produtor, a cena independente precisa de mais pessoas dispostas a assumir riscos, promover eventos e garantir cachês aos artistas. Afinal, talento e criatividade não faltam.
E é justamente nesse ponto que Junior identifica uma das características mais fortes da produção independente cearense: a criatividade.
Para ele, o underground brasileiro já carrega naturalmente uma característica de resistência, enquanto a cena cearense vem percebendo cada vez mais a importância da união entre artistas, coletivos e produtores.
Os shows também estão deixando de lado a “mesmice”, segundo o produtor, com bandas cada vez mais preocupadas não apenas com a música, mas também com presença de palco e performance.
Uma cena feita de encontros
Outro aspecto defendido por Junior é a necessidade de superar a ideia de que a cena musical é formada por grupos isolados.
Segundo ele, muitas vezes existe uma percepção de que a cena funciona como uma “panela”, quando, na realidade, existem diferentes movimentos e grupos produzindo simultaneamente.
O Sessão Nuclear surge também como uma possibilidade de aproximar essas diferentes vertentes.

Junior cita encontros e parcerias entre artistas de diferentes movimentos, como Luh Lívia e Siavesh; O Ciclo e Claudine; Carú e Mona Gadelha; Essas Mulheres e Nega Lu, além da aproximação recente entre Pira Coletiva, Cheiro do Queijo e Batuta.
Para o produtor, essas conexões demonstram que a diversidade não precisa significar divisão.
“Trabalhando juntos, a cena não enfraquece, só fortalece”, resume.
Essa talvez seja uma das principais ideias por trás do novo projeto. Ao colocar diferentes artistas diante das câmeras, o Sessão Nuclear não pretende apenas registrar apresentações, mas também criar pontes entre públicos, estilos e movimentos que fazem parte da produção musical independente do Ceará.
Um novo capítulo para o Abrigo Nuclear
Depois de mais de uma década desde que Junior Bala decidiu abrir as portas do antigo estúdio de ensaio para os amigos, a Abrigo Nuclear chega a uma nova etapa.
O estúdio que nasceu como espaço de uma banda tornou-se produtora, gravadora, ponto de encontro, espaço de produção audiovisual e agora também dá origem a um programa dedicado a contar histórias e apresentar artistas da cena independente.
A primeira temporada do Sessão Nuclear, com cinco episódios, representa justamente essa continuidade: preservar a proximidade que marcou a história do Abrigo Nuclear, mas utilizando novas ferramentas para levar essa experiência a um público ainda maior.
Entre música, conversa e resenha, a proposta é colocar os artistas no centro — não apenas como músicos no palco, mas como pessoas, criadores e protagonistas de uma cena que continua se reinventando.
Entrevista com o Produtor Cultural Junior Bala:
1 – Como surgiu a Abrigo Nuclear Produções? O que motivou a criação do estúdio e da produtora?
O Abrigo Nuclear a princípio era o estúdio de ensaio da minha banda os amigos pediam pra ensaiar aqui e eu nunca liberava rsrsrs, mas em 2011 eu comecei a liberar pros amigos, em 2013 eu saí da banda e pra não me afastar da música resolvi dar continuidade ao estúdio, a produtora e gravadora foi só consequência dos trabalhos e estudos na área da música e cinema.
2 – Produzir cultura, especialmente música independente e underground, em Fortaleza traz quais desafios?
A música independente é naturalmente desafiadora, ver essa galera talentosa criando é muito instigante, o problema é mais pessoas, “empresários e produtores”, aceitarem o desafio de mudar a cultura e fazer mais eventos com cachês para essa galera não desistir. A pior parte é ver gente talentosíssima parando no meio do caminho por causa da sobrevivência financeira.
3 – Existe uma característica própria na cena underground de Fortaleza que você acredita que a diferencia de outras cenas do Brasil?
O underground Brasileiro em si é resistência, aos poucos a cena cearense percebe que unidos conseguem mais produções e visibilidade, acho que a cena cearense tem a característica de ser criativa, essa é a palavra e os eventos estão perdendo a mesmice e atraindo mais o público, bandas preocupadas tanto em presença de palco como em performance, fazendo dos shows verdadeiros espetáculos.
4 – Agora vamos falar do novo projeto: como nasceu a ideia do Sessão Nuclear?
Eu sempre assisti o “Musicaos”, o “Matéria Prima” (hoje Altas Horas), e pensava que queria produzir alguma coisa parecida, mas nunca tive talento pra ser um Gastão ou um Serginho, aí quando vi o “Ensaio” da Cultura, percebi que não precisava ser um apresentador, em 2021 fiz um piloto com a banda O Ciclo, mas com poucos recursos, não gostei muito do resultado, aí agora com o estúdio ampliado e melhor equipado fui instigado pelo coletivo que faço parte o Artes em Conexão e com apoio financeiro de um prêmio da cultura estou colocando o projeto pra frente. Essa que estou chamando de primeira temporada terão cinco programas.
5 – O que você imaginava quando começou a pensar em um programa que unisse entrevista e apresentação musical?
Como estou inserido na cena, tem muitas curiosidades que eu sei que seria massa que o público soubesse, e essa galera ao vivo é mais divertida do que em gravações take a take com aspecto “mais sério”, fiz a coletânea “Elas no Abrigo” que trouxe uma responsabilidade de colocar nas mídias é um negócio que não se pode errar, claro que o público merece o melhor, mas ver a banda em um momento mais descontraído e querendo mostrar o seu trabalho, eu imaginava aquela cara de resenha pós show que alguns já conhecem e outros acham que os músicos são intocáveis e não pode chegar perto, temos sim ídolos na nossa cena underground, conversem com eles sem medo.
6 – O que o público pode esperar de um episódio do Sessão Nuclear?
Curiosidades, profissionalismo e diversão, independente do estilo musical.
7 – Como você enxerga o atual momento da música independente em Fortaleza e a contribuição que o Sessão Nuclear pode dar para esse movimento?
Conversando com outras pessoas vi que tem uma visão de panela que as vezes divide a cena, mas na verdade são várias frações de movimentos diferentes que estão tentando produzir, estou conseguindo apresentar artistas de um movimento para o outro e fazer a galera trabalhar junto, assim tenho uma visão da cena trabalhando junto. Ex.: Luh Lívia e Siavesh, O Ciclo e Claudine, Carú e Mona Gadelha, Essas Mulheres e Nega Lu, vi recentemente a parceria da Pira Coletiva com o Cheiro do Queijo e Batuta, essas parcerias só fortalecem a cena, trabalhando juntos a cena não enfraquece só fortalece.
Muito Obrigado Junior, e vida longa ao Sessão Nuclear.
Redação ACR.



