Recebi hoje pela rede social uma publicação no instagram da Secretaria Municipal de Cultura de Fortaleza (SECULTFOR) sobre o Festival de Música de Fortaleza 2020. A publicação convoca músicos de todo país para se inscreverem no referido evento. Me chamou atenção um trecho do enunciado que diz: “Podem participar do festival os artistas residentes no País e no exterior, com idade acima de 18 anos, e que apresentem música inédita composta em língua portuguesa, dos mais variados gêneros.” Do ponto de vista político, da visibilidade para a cidade de Fortaleza o evento é uma ótima ferramenta de publicidade para a gestão.

Do ponto de vista do fortalecimento da classe municipal fortalezense, que sofre com a pandemia do covid-19, que encontra-se sem proteção social, sem trabalho, sem dignidade, sem auxilio emergencial municipal e federal, trata-se de um acinte. Demonstra falta de sensibilidade por parte da gestão, que deveria propor políticas públicas voltadas para o município de Fortaleza e fortalecer seus artistas no período emergencial. Utilizar verba municipal para premiar artistas de outros estados seria a melhor solução? Acredito que não!
A pandemia exige solidariedade e apoio mutuo entre os diversos grupos sociais, sobretudo, no campo da Música e da Cultura, um dos primeiros segmentos a interromper suas atividades e um dos últimos a retornar. O modelo competitivo adotado pela Prefeitura Municipal de Fortaleza demonstra despreocupação com o que vem acontecendo no mundo inteiro. Se quer premiar os melhores, poderia estender essa premiação a todos os classificados e fazer uma divisão igualitária do premio em vez de estimular a competição.

Se o orçamento do evento vem do municipio por que estender a artistas de todas as regiões do país e do mundo?

No início da pandemia, a SECULTFOR criou um auxilio emergencial municipal voltado aos artistas, o baixo valor de R$ 200,00 (parcela única) desestimulou a categoria a buscar o referido auxilio. Sobrou vaga, faltou interesse mesmo com os artistas em dificuldade financeira. Em âmbito nacional, o PC do B, partido que controla atualmente a referida pasta em Fortaleza e o PDT (partido do Prefeito de Fortaleza) foram contra as três parcelas de R$ 200,00, proposta inicialmente pelo Governo Federal, que depois de muita pressão, passou para R$ 600,00 (em três parcelas). Em âmbito federal a oposição critica as medidas do atual governo em relação as políticas emergenciais, mas não cumpre o papel em ambito municipal. Não seria uma contradição?

Diante do exposto, em tempos de dificuldades para a classe musical, chegou a hora dos gestores reverem conceitos e ações culturais. Manter eventos como a referida mostra, demonstra descompasso da gestão com a realidade vivenciada pela categoria nos dias atuais. Além disso, poderia rever a questão do Auxilio Emergencial Municipal para a classe artística, pois fica demonstrado que existe orçamento, existe verba, mas falta sensibilidade e vontade política. Fica a dica!!!

Amaudson Ximenes Veras Mendonça é sociólogo, Mestre em Políticas Públicas e Sociedade pela Universidade Estadual do Ceará e Diretor Presidente do Sindicato dos Musicos Profissionais do Estado do Ceará